terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cristóvão Colombo descobriu a América. FALSO !

Ele foi o primeiro europeu a chegar ao Novo Mundo e revelou aos homens de seu tempo a existência de um continente até então desconhecido. Certo? Errado!




Oficialmente, o título de “descobridor da América” pertence ao navegante genovês Cristóvão Colombo, mas ele não foi o primeiro estrangeiro a chegar ao chamado Novo Mundo. Além disso, o próprio Colombo nunca se deu conta de que a terra que encontrou era um continente até então desconhecido.

A arqueologia já revelou vestígios da passagem dos vikings pelo continente por volta do ano 1000. Leif Ericson, explorador que viveu na região da Islândia, chegou às margens do atual estado de Maine, no norte dos Estados Unidos, no ano 1003. Em 1010 foi a vez de outro aventureiro nórdico, Bjarn Karlsefni, aportar nos arredores de Long Island, na região de Nova York. Além disso, alguns pesquisadores defendem que um almirante chinês chamado Zeng He teria cruzado o Pacífico e desembarcado, em 1421, no que hoje é a costa leste dos Estados Unidos.

Polêmicas à parte, Cristóvão Colombo jamais se deu conta de que havia descoberto um novo continente. A leitura de suas anotações de bordo ou de suas cartas deixa claro que ele acreditou até a morte que tinha chegado à China ou ao Japão, ou seja, às “Índias”. É o que o navegador escreveu, por exemplo, em uma carta de março de 1493.

Mesmo nos momentos em que se apresenta como um “descobridor”, Colombo se refere aos arredores de um continente que o célebre Marco Polo – do qual foi leitor assíduo – já havia descrito. Em outubro de 1492, depois de seu primeiro encontro com nativos americanos, o explorador fez a seguinte anotação em seu diário de bordo: “Resolvi descer à terra firme e ir à cidade de Guisay entregar as cartas de Vossas Altezas ao Grande Khan”. Guisay é uma cidade real chinesa que Marco Polo visitara. Nesse mesmo documento, Colombo escreveu que, segundo o que os índios haviam informado, ele estava a caminho do Japão. Os nativos tinham apontado, na verdade, para Cuba.

Suas certezas foram parcialmente abaladas nas viagens seguintes, mas o navegador nunca chegou a pensar que aportara em um novo continente. Sua quarta viagem o teria levado, segundo escreveu, à província de “Mago”, “fronteiriça à de Catayo”, ambas na China.

Apesar disso, Colombo revestiu seus relatos com um tom profético. “Estou convencido de que se trata do paraíso terrestre”, disse a respeito da foz do rio Orinoco, no território das atuais Colômbia e Venezuela. Quando voltou à Europa, ele chegou a redigir um “livro de profecias”, no qual juntou citações bíblicas a textos de cosmografia e de profetas medievais numa tentativa de, aparentemente, relacionar o Novo Mundo aos reinos míticos de Társis e Ofir, citados no Antigo Testamento. A obra não chegou a ser terminada.

Somente nos últimos anos de sua vida o genovês considerou a possibilidade de ter descoberto terras realmente virgens. Mas foi necessário certo tempo para que a existência de um novo continente começasse a ser aceita pelos europeus. Américo Vespúcio foi um dos primeiros a apresentar um mapa com quatro continentes. Mais tarde, em 1507, a nova terra seria batizada em homenagem ao explorador italiano. Um ano depois da morte de Colombo, que passou a vida sem entender bem o que havia encontrado.

sábado, 25 de setembro de 2010

Papel + criatividade...






É sensacional ver pessoas talentosas em plena atividade. As fotos que ilustram este post provam isso. A maioria dos edifícios e estruturas apresentadas aqui são feitas em uma única folha de papel, dobrada e cortada milimetricamente para criar belas esculturas.

O que torna os trabalhos fantásticos, além da estética, é o esforço e imensa quantidade de paciência que cada artista deposita.






A divisão do Mar Vermelho, pode realmente ter acontecido...





Um dos episódios mais dramáticos da Bíblia, a divisão do Mar Vermelho, pode realmente ter acontecido. É o que novas pesquisas científicas mostram.

Entretanto, o evento descrito no Livro de Êxodo foi, provavelmente, motivado por condições meteorológicas e não por uma intervenção divina.
Um estudo de modelagem sugere que um vento forte poderia ter dividido as águas tal como descrito na Bíblia, intrigando os estudiosos e encantando os filmes de Hollywood. A localização do provável milagre também não teria sido no Mar Vermelho e sim na região do Delta de Nilo.

No relato do Êxodo, Moisés e os israelenses estavam presos entre os carros de Faraó e uma massa de água, identificada como o Mar Vermelho. Graças a uma intervenção divina, um forte vento oriental acabou separando as águas para deixar um trecho de terra seca, com paredes de água em ambos os lados. Por ali, os guiados por Moisés conseguiram fugir do exército de Faraó e os soldados, que vinham logo atrás, acabaram sendo afogados.

Segundo uma matéria do Daily Mail, um grupo de cientistas norte-americanos estudaram mapas antigos da região do Delta do Nilo, onde localizaram o provável local do evento. Análises de registros arqueológicos, medições por satélite e mapas permitiram aos pesquisadores estimar o fluxo de água e profundidade no local há 3 mil anos.

Um modelo digital do oceano foi então utilizado para simular o impacto de um vento forte nas águas. Os cientistas descobriram que um vento leste teria impulsionado as águas.

Por um período de quatro horas, as águas realmente teriam sido separadas, com obstáculos de água em ambos os lados e criando uma passagem de 3, 2 km de comprimento e 5 km de largura. Assim que os ventos diminuíram, as águas voltaram ao fluxo normal.

Carl Drews, do Centro Nacional para Pesquisas Atmosféricas, em Boulder, Colorado, declarou: “A separação das águas pode ser compreendida através da dinâmica de fluidos. O vento moveu a água de uma forma que, em conformidade com as leis da física, criou uma passagem segura de água em dois lados e, em seguida, abruptamente permitiu que a água corresse de volta”.

Ele ainda complementou: “As pessoas sempre ficaram fascinadas por esta história do Êxodo, querendo saber se tratava-se de fatos históricos. O que este estudo mostra é que a descrição da divisão das águas na verdade tem uma base em leis físicas”.


Um conjunto de 14 simulações de computador mostrou que a terra seca também pode ter sido exposta em outros dois locais próximos, durante a tempestade de vento.

domingo, 8 de agosto de 2010

300 anos no fundo do mar...




O Vasa, da Suécia, foi o maior e mais poderoso navio de sua época. Mas transformou-se num fiasco ao afundar assim que foi lançado à água. Resgatado e preservado num museu ultramoderno, em Estocolmo, ele trouxe à tona um pedaço intacto do século XVII.





Estocolmo, verão de 1628. No ensolarado dia 10 de agosto, uma multidão alegre reuniu-se para assistir o mais novo galeão da armada real, o Vasa, ser lançado ao mar. Era um dos maiores navios do seu tempo: tinha 64 canhões, dez velas e três mastros (o maior, de 50 metros). Quando a brisa enfunou as velas, milhares de pessoas na praia saudaram o galeão avançando na baia.

Súbito, os gritos de alegria viraram murmúrio de horror. Uma lufada de vento fez o Vasa adernar à esquerda. O navio ainda conseguiu endireitar-se, mas apenas para tombar de novo, agora com água entrando pelos buracos dos canhões no casco. Majestosamente, o Vasa afundou com velas, bandeiras e bronzes, levando 50 homens e mulheres. Percorreu 1 300 metros na sua única viagem.

Foi o maior fiasco da história naval sueca. Os mestres do estaleiro, o capitão e o piloto foram presos tão logo salvos da água. Mas um inquérito aberto em seguida foi suspenso sem apontar responsabilidades.

Em 1956, o caçador de tesouros Anders Franzén realizou o impensável. descobriu o Vasa e, com a ajuda do governo sueco, tirou-o do fundo da baia e trouxe-o intacto para a superfície. O navio e os 25 mil objetos achados nele, primorosamente restaurados, podem ser vistos, hoje, no museu mais visitado da Suécia o Museu do Vasa.

O Vasa foi encomendado pelo rei Gustav Adolf II para impor seu poder no Báltico. Uma armada poderosa, raciocinou o rei, protegeria as linhas de suprimento para a guerra então em curso contra os poloneses, e permitiria bloquear portos poloneses importantes, como Danzig (hoje Gdansk). O Vasa era instrumento e expressão de planos grandiosos. E foi o navio mais caro, maior e mais poderoso da sua época.

Mil carvalhos foram derrubados para a construção do casco. O barco todo foi luxuosamente adornado por mais de 700 estátuas barrocas representando leões imperiais, profetas do Velho Testamento, imperadores romanos, heróis da mitologia grega, sereias, anjos e demônios. Ao contrário do que ocorre na arquitetura moderna, no Vasa a função foi submetida à forma para promover a imagem gloriosa de Gustav Adolf II. Todos os que vissem o navio deveriam impressionar-se com o esplendor e o poder da monarquia sueca.

Mesmo assim, durante os três anos de construção, a escalada da guerra com a Polônia e a proximidade de uma guerra com a Alemanha induziu à revisão dos planos. O navio já tinha forma quando Gustav Adolf decidiu aumentá-lo às pressas. Não foi fácil, já que os mestres de obras da época não desenhavam a estrutura das naus e não dispunham de meios para calcular sua estabilidade. Ensaio e erro, talento e experiência eram a base da indústria. Além disso, o mestre de obras holandês, Henrik Hybertsson, morrera um ano antes do Vasa ser concluído e a responsabilidade pela obra foi entregue à viúva e a um assistente e um irmão de Hybertsson.

O rei decidiu adicionar um segundo andar ao Vasa para dobrar seu poder de fogo de 32 para 64 canhões que representavam um quarto do poder de fogo de toda a frota sueca. Com isso, o espaço destinado ao lastro ficou reduzido, limitado a comportar 121 toneladas de pedras. Era menos da metade do que mandavam os manuais.

A ambição de Gustav Adolf, por-tanto, selou o desastre do Vasa. E o inquérito de 1628 ficou sem conclu-são por motivos óbvios. Mas a culpa não foi só do rei. O piloto Joran Mattson, revelou, no inquérito, que o homem mais influente da Marinha, o Vice-Almirante Klas Fleming, e o comandante do Vasa, capitão Sofring Hansson, acompanharam, pessoalmente, os testes de estabilidade.

Nesses testes, trinta homens corriam diversas vezes pelo convés da popa, para ver se ele se desequilibrava. Mas logo tiveram de ser interrompidos, pois na terceira volta o navio adernou perigosamente. Ou seja, estava claro que alguma coisa não ia bem com o Vasa. Mas as autoridades silenciaram e não tomaram providência.

Três dias após o naufrágio, o Conselho do Reino autorizou o resgate dos canhões do Vasa. O Vice-Almirante Fleming, o mesmo que silenciara sobre os testes de estabilidade, conseguiu recuperar vários. Muitos tentaram resgatar objetos do Vasa tantos que, em 1961, 40 âncoras, de diferentes séculos foram encontradas presas no casco. O mais bem sucedido foi o sueco Albreckt von Treileben que, em 1664, desceu até o fundo usando um sino submarino. O princípio era o mesmo de um copo emborcado na água: sempre fica uma camada estreita de ar na parte superior do copo. No sino, isso permite que o mergulhador respire. Treileben resgatou 50 dos 64 canhões.

O Vasa, então, foi abandonado e sua localização, esquecida. Em 1950, o engenheiro naval, caçador de tesouros e estudioso de arquivos Anders Franzén decidiu procurá-lo. Em experiências anteriores, Franzén descobrira que as águas pouco salgadas do Báltico gozam de um privilégio: são inós-pitas ao verme Teredo navalis, que destrói a madeira dos navios. Por isso, o Vasa deveria estar lá, inteiro, no fundo. Franzén achou-o em 1956, após cinco anos de busca.

Imediatamente, lançou-se uma campanha nacional para resgatar o navio.Salvem o Vasa era o seu mote. Não faltaram palpites. Um pesquisador propôs congelar o Vasa em um imenso bloco de gelo. Dessa maneira, ele deveria flutuar. Outro afirmou que o mesmo efeito poderia ser conseguido se o navio fosse abarrotado de bolas de ping-pong.

A estratégia adequada foi definida com a ajuda da Marinha Real e de empresas de navegação e resgate. Mergulhadores operando canhões de água cavariam túneis por baixo do casco, enfiando neles cabos de aço para erguer o navio. Em agosto de 1959, após 300 anos, o Vasa soltou-se do fundo.

Dezoito vezes a operação foi repetida, deslocando-se o Vasa gradualmente para águas mais rasas. Antes da última e definitiva suspensão, o casco teve de ser restaurado para poder flutuar. Os mergulhadores ainda levaram dois anos para tapar milhares de buracos abertos por pregos desintegrados pela ferrugem. A pôpa quebrada foi reconstruída e as 64 aberturas para os canhões, no casco, foram substituídas por escotilhas à prova d'água. No dia 24 de abril de 1961, as televisões do mundo todo e milhares de pessoas assistiram o Vasa voltar gloriosamente à superfície trazendo consigo um pedaço intacto do século XVII.

No século XVII, a Suécia era um país pobre, mas uma potência em expansão. Em 1621, o rei Gustav Adolf declarou guerra à Polônia. A Lituânia e a Prússia, sob domínio polonês, foram palcos da guerra. O adversário foi batido em 1629 um ano após a tragédia do Va--sa.Em 1630, Gustav Adolf sentiu-se forte para começar outra guerra, ao lado dos príncipes protestantes contra os católicos liderados pelo imperador da Alemanha a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Em junho de 1630, a bordo de 37 navios, os suecos invadiram a Alemanha com 15 mil homens.

Como o Vasa havia sido construído para participar dessas lutas, os objetos encontrados nele revelam muita coisa sobre o mundo no século XVII. Apesar da toda a sua grandeza, a vida dos marinheiros era dura. Um em cada dez suecos era recrutado pela Marinha. Quando a armada voltou da Polônia, em 1629, os marinheiros tiveram de ficar em Estocolmo, proibidos de visitar suas cidades. Temia-se que fugissem. O salário era pequeno e parte dele era usada para pagar roupas e comida.

Os homens usavam jaqueta curta, com uma camisa de linho grosso por baixo, calções até o joelho e casacos de lã. Meias e sapatos de couro macio, ou botas. As roupas tinham que durar bastante porque não havia outras. Por isso, serzir, costurar e remendar eram atividades comuns a bordo. Agulhas, facas para cortar pano e linhas de costura foram achadas em profusão no Vasa.

O marinheiro que não estivesse nas velas ou cuidando da âncora ficava junto aos canhões. Ali, fazia as refeições, usando pratos e colheres de madeira, dormia e lutava, durante as batalhas.

A cozinha ficava no fundo do navio e servia uma dieta básica de mingau de cevada, cereais cozidos com feijão e ervilha seca, além de carne ou porco salgado, peixe seco e pão. Os cozidos eram feitos em um único caldeirão de ferro, sobre o fogo de uma lareira de tijolos. Não havia chaminé. A fumaça enchia os andares que a tripulação ocupava.

Higiene não existia. O risco de morrer em epidemias era maior do que o de morrer em batalha. Escorbuto, disenteria, malária e difeteria eram comuns. Em 1628, dois terços dos marinheiros de uma esquadra enviada à Polônia morreram. O médico de bordo era também o barbeiro e os principais tratamentos eram cataplasmas, ervas medicinais ou sangramentos (para tentar expelir do corpo a causa do mal). Amputações eram feitas sem anestesia. O regulamento mandava dar dois copos de cerveja para fortificar aos marinheiros jovens, antes das batalhas.

As penalidades por infrações eram cruéis. Uma das mais temidas era passar o infrator por baixo da quilha, amarrado pelo pé, uma, duas ou três vezes, de acordo com a falta. Se não morresse afogado, ele dificilmente sobrevivia aos ferimentos e arranhões sofridos no casco do navio. A navegação também podia ser muito perigosa: na década de 1620, a Suécia perdeu 15 navios de guerra, mas só dois em batalha. Treze afundaram em consequência de terem saído da rota devido a erros de navegação.

Quando o Vasa subiu à superfície, antes de começar a escavar na lama no fundo do casco, os arqueólogos vacinaram-se contra tétano, tifo e icterícia. Mais de 14 mil fragmentos de peças foram recompostos. Mas o maior problema foi preservar a madeira fora da água após 300 anos de imersão. A madeira molhada se contrai e racha quando exposta novamente ao ar quente e seco. O Vasa quebraria inteiramente se não fosse cuidadosamente tratado. No início, ele foi umedecido por sprays. Ao mesmo tempo, o desafio de remover a água de 1 100 toneladas de madeira era su-perado por injeções de glicose de polietileno (PEG). Essa substância penetra na madeira e expulsa a água.

O tratamento durou 18 meses pa-ra o carvalho e um ano para as ma-dei-ras macias. Durante 17 anos, o navio foi impregnado por dentro e por fo-ra até saturação. Em 1979, finalmente, o casco foi secado. Mas o navio con-tinua frágil. No museu, o ar é mantido com 60% de umidade e a temperatura em 20 graus. A luz tem que ser fraca. Toda a delicadeza é pouca para que um pedaço do século XVII chegue à eternidade.

Por Ricardo Arnt

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Marselhesa não nasceu em Marselha...

O oficial Rouget de Lisle compõe uma mera canção de guerra que se tornaria símbolo da Revolução Francesa

Em julho de 1792, soldados vindos dessa cidade do sul da França entraram em Paris entoando a canção que se tornaria o hino nacional do país. Mas a música foi composta em Estrasburgo


A Marselhesa ou Marseillaise, no original, hino nacional da França desde 1795, foi muito popularizada e difundida pelos soldados federados marselheses que entraram em Paris em julho de 1792. Mas sua história certamente não começou em Marselha.

Alguns meses antes, em abril de 1792, Joseph Rouget de Lisle, oficial do exército francês e músico autodidata, compôs uma canção intitulada Canto de guerra para os batalhões baseados na cidade de Estrasburgo. A peça era uma homenagem à fama liberal e patriótica da cidade, na qual Rouget de Lisle e seus comandados estavam de prontidão, inflamados pela notícia da declaração de guerra feita pelo imperador da Áustria. O tema rapidamente se espalhou e versos como “Aux armes citoyens, étendard de guerre est déployé...” (“às armas, cidadãos, o estandarte de guerra está desfraldado...”) passaram a ser entoados por todos.

Foi nessa atmosfera que Philippe-Frédéric de Dietrich, prefeito de Estrasburgo, solicitou ao oficial francês que apresentasse seu canto patriótico no dia 25 de abril do mesmo ano. A canção foi retrabalhada e editada pelo compositor Gosece e pela esposa de Dietrich, sendo tocada quatro dias depois diante de oito batalhões da Guarda Nacional. O sucesso foi imediato.
Em pouco tempo, por intermédio de viajantes e mascates, a música chegou à Provença, no sudeste da França, e teve seu verdadeiro impulso: foi interpretada em 22 de junho pelo general François Mireur na cerimônia de recepção dos federados de Montpellier, em Marselha, e publicada pela imprensa da cidade com o título de #Canto de guerra dos exércitos nas fronteiras#. Um mês depois, a canção chegava a Paris com os soldados federados marselheses, que a cantaram durante todo o trajeto. Desde então, passou a ser associada a essa cidade do sul da França. No dia 4 de agosto o jornal La Chronique de Paris evocou o canto dos marselheses, e seis dias depois ele seria entoado durante a famosa tomada do Palácio das Tulherias.

Em 20 de setembro de 1792, o exército revolucionário, comandado pelo general Dumouriez, venceu a Batalha de Valmy, travada contra a nobreza francesa e seus aliados austríacos e prussianos, que tentavam derrubar o regime instaurado em 1789. Na ocasião, Servan de Gerbey, ministro da Guerra da França, escreveu ao general vitorioso: “O hino conhecido pelo nome de La Marseillaise é o Te Deum da República”. A partir de então, a canção passou a ser executada em todas as grandes comemorações cívicas.

Em 1793, a Convenção ordenou que o canto fosse entoado em todos os espetáculos da República. Em 1795, um decreto consagrou a “Marselhesa” como hino nacional da França. A República impôs definitivamente à obra de Rouget de Lisle um nome que não era o seu, embora o autor nunca deixasse de chamá-la pelo título original.

Embora muito discutida pelos eruditos do século XIX, a autoria da obra não foi questionada durante a Revolução: a própria Assembleia Nacional deu dois violoncelos a Rouget de Lisle em recompensa pelos serviços prestados. Fosse qual fosse a paternidade real da canção mais conhecida da França.

por Antoine Roullet

terça-feira, 27 de julho de 2010

Templários: entre a cruz e a coroa...


A popularidade do mito criado em torno da Ordem esconde o papel original que os cavaleiros desempenharam no embate entre o papado e as monarquias nacionais no século XIV


A Idade Média é um tema profundamente atual. O período é hoje tema de filmes, espetáculos, romances, festas medievais, lojas e restaurantes, sites da internet, jogos como RPG etc. Mesmo de um ponto de vista acadêmico, algumas obras recentes mostram uma verdadeira obsessão pelas origens medievais da Europa e da própria União Européia.

A Ordem dos Templários constitui um dos temas que melhor ilustram o fascínio exercido pela Idade Média nos dias de hoje. Uma rápida consulta em qualquer sítio de busca na internet mostra a atualidade do interesse pela Ordem dos Templários. Muito se tem escrito sobre o caráter místico da Ordem, seu papel como guardiã de segredos e tesouros da Igreja e até mesmo sobre seu caráter “demoníaco”. Por outro lado, a própria história da Ordem fornece elementos que ajudam a entender essa lenda contemporânea. O processo movido contra a Ordem pelo rei da França, Felipe IV, no início do século XIV, na medida em que incluía acusações de heresia e bruxaria, em muito contribui hoje para a associação entre os Templários e o ocultismo.
O fato é que as apropriações contemporâneas obscureceram a originalidade e o significado da Ordem no período medieval. Em que pese sua fundação em um contexto cruzadístico (mais precisamente em 1120), a história dos Templários insere-se mais profundamente no projeto de Reforma da Igreja (também conhecido como Reforma Gregoriana), levado a cabo pelo papado a partir da metade do século XI. Este último buscou se servir da Ordem como um instrumento de transformação, de pacificação e de controle da sociedade.

Em 1139, através da bula Omne datum Optimum, os Templários foram colocados sob a proteção direta do papado, obtendo autonomia em relação às autoridades episcopais. Alain Demurger afirma que essa tendência à instrumentalização dos cavaleiros se acentuou durante as Cruzadas, já que essas peregrinações armadas rumo a Jerusalém combinavam o valor penitencial da peregrinação à ideologia dos “movimentos de paz”, intensificando o processo de sacralização da guerra empreendido pelos reformadores gregorianos.

Mas a conformação dos cavaleiros à ideologia eclesiástica não significava uma renúncia completa ao mundo, tal como acontecia entre os monges, e sim a submissão de suas atividades guerreiras aos desígnios do Cristo, como bem lembrou Jean Flori. Em outras palavras, eles se tornavam “cavaleiros de Cristo”, perfeitamente integrados à sociedade cristã e aos seus objetivos, e não mais cavaleiros em busca da simples glória terrena. É precisamente na conciliação de duas esferas até então incompatíveis – a vida militar e a vida religiosa – que reside a originalidade da Ordem dos Templários. A intervenção do rei da França, Felipe IV, que ordenou em 1307 a prisão de todos os Templários presentes no reino, o confisco de seus bens, bem como os processos políticos movidos contra eles, marcaram a crise do papado e o fortalecimento das monarquias nacionais.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Brasília vai rodar o mundo...

Exposição sobre os 50 anos da capital será montada em Portugal e Espanha. Principal atração é a maior maquete já feita da cidade

O aniversário de 50 anos de Brasília continua rendendo frutos. Está atualmente em exposição no Museu Nacional de Brasília a maior e mais completa maquete já feita da capital federal. Os brasilienses, porém, só tem até o dia 8 de agosto para ver a peça. Construído pelo arquiteto e maquetista Anotonio José Pereira de Oliveira, o modelo sairá em turnê pela Europa entre os meses de setembro e dezembro deste ano.

A peça será a principal atração da exposição Brasília 50 anos – meio século da capital do Brasil, que passará por Portugal e na Espanha no segundo semestre. Também é provável que a Alemanha ganhe uma versão da mostra, já que a cidade de Munique já demonstrou interesse pelo evento. Além da maquete, que mede 6 x 4,8 metros, a mostra vai reunir fotografias da capital brasileira, documentos de época, obras de arte e um ciclo de filmes sobre a cidade projetada por Oscar Niemeyer. A maquete ainda fará uma escala em Milão, na Itália, mas sem os demais materiais que compõem a mostra itinerante.

Enquanto isso, aqui no Brasil uma nova exposição sobre a cidade de Niemeyer abre suas portas no próximo dia 19 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da capital federal. A mostra Brasília e o Construtivismo: um encontro adiado explora a relação entre a cidade e o movimento artístico surgido na década de 1950. Embora esse estilo tivesse uma relação muito próxima com o modernismo, que orientou a construção da capital federal, ele acabou ficando de fora do plano urbanístico brasiliense. O objetivo da exposição é resgatar essas semelhanças artísticas e arquitetônicas, por meio de obras de consagrados nomes do construtivismo, como Lygia Clark e Hélio Oiticica.

Quando a MPB era realmente popular...



Documentário Uma noite em 67, que estreia no próximo dia 30, conta os bastidores da “época de ouro” dos festivais


Diante de uma plateia em polvorosa, Edu Lobo, Marília Medalha e o Quarteto Novo interpretam Ponteio, canção vencedora do III Festival da Música Popular Brasileira (FMPB) da TV Record. O público vai ao delírio, mal se escuta a voz dos cantores. Poderia ser um estádio de futebol, mas não: é o Teatro Paramount, em São Paulo, que naquela noite de 21 de outubro de 1967 foi palco de um dos marcos da história da música no Brasil.

Esse é o ponto de partida de Uma noite em 67, documentário de Renato Terra e Ricardo Calil que estreia no próximo dia 30 nos cinemas de todo o país. O título traduz bem o espírito da obra. Tudo se passa em uma única noite, a da final do III FMPB, que é reconstituída por meio de imagens de arquivo e entrevistas.

Sérgio Ricardo reflete sobre a desclassificação de sua Beto bom de bola depois que ele quebrou seu violão. Roberto Carlos conta por que interpretou um samba, Maria, carnaval e cinzas, que conquistou o quinto lugar da competição. Caetano Veloso e Gilberto Gil falam da ousadia de subir ao palco com duas bandas de rock para interpretar Alegria, alegria e Domingo no parque, músicas que ficaram em quarto e segundo lugar, respectivamente. E Chico Buarque explica o sucesso de Roda viva, terceira colocada no festival.

O resultado é uma espécie de making of histórico. Com o distanciamento no tempo, os entrevistados desconstroem boa parte do mito romântico criado em torno da “idade de ouro” da MPB. O primeiro a fazer isso é o próprio produtor dos festivais da TV Record, Solano Ribeiro. Ao comentar a final de 1967, ele afirma que naquele momento ninguém tinha consciência da dimensão artística, política e sociológica do evento. Aquilo era apenas um programa de televisão, afirma.

O jornalista e crítico musical Nelson Motta, compositor de uma das canções que concorriam em 1967, vai além: segundo ele, naquela época as telenovelas ainda não faziam o sucesso que fazem hoje e os programas mais populares da TV eram os musicais. A agitação em torno dos festivais, portanto, tinha muito a ver com a busca da Record por audiência.

Paulinho Machado de Carvalho, então diretor da emissora, diz que os festivais eram um espetáculo no qual cada artista desempenhava um papel: “Tinha de ser como luta livre: tinha o mocinho, o vilão, a heroína, etc”. Chico Buarque afirma que os arranjos das músicas apresentadas seguiam uma fórmula, pensada para cativar o público à primeira vista. Por fim, Edu Lobo conta que o público apostava para ver que canção ia ganhar. “Você era um cavalo”, resume o compositor.

Nada disso, porém, tira o valor artístico da música da época. Chico Buarque estava denunciando a repressão da ditadura militar em cadeia nacional, Caetano Veloso falava de guerrilha e amor livre no horário nobre e Gilberto Gil transformava uma história típica da classe trabalhadora em um sucesso da música jovem e de massas. Não era pouca coisa.

O grande mérito do documentário é mostrar em que condições específicas a MPB foi capaz de mobilizar multidões no Brasil. Deixa claro, assim, que Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil não são modelos eternos e universais, mas sim a expressão de um determinado momento histórico: uma época em que a MPB realmente foi popular.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O apocalíptico 21 de dezembro de 2012...

Cientistas da NASA e estudiosos da religião maia refutam as catástrofes supostamente previstas pelo calendário do povo mesoamericano

Profecias de antigas civilizações são sempre intrigantes. Por isso, diversos livros, sites, filmes e documentários têm explorado a previsão supostamente feita pelos maias de que o mundo acabaria em 21 de dezembro de 2012. A previsão de catástrofe, no entanto, não encontra respaldo entre os cientistas.

Intérpretes do calendário maia sugerem que nessa data haverá um alinhamento celeste entre e o Sol e o centro da galáxia, fenômeno que terá consequências nefastas para o planeta. A tese, no entanto, foi categoricamente refutada pelos cientistas da Agência Espacial Americana (Nasa). Segundo os astrônomos, não há nada de extraordinário nesse alinhamento, que ocorre todo mês de dezembro, e o Sol e o centro galáctico nem sequer coincidirão exatamente em 2012.

Até para estudiosos de fenômenos extraterrestres a profecia maia sobre o fim do mundo não passa de um erro de análise. Para o peruano Ricardo González, os maias nunca se referiram à destruição do planeta. O que estaria indicado para o fatídico 21/12/12 seria o fim de um ciclo, iniciado em 3113 a.C. A boa notícia é que, segundo González, o suposto novo ciclo, a ser inaugurado em 22 de dezembro de 2012, promete ser mais positivo e trará mais esperança para a humanidade.

França prepara “lista da vergonha”...

Governo do país anuncia a publicação na internet dos nomes dos cidadãos que colaboraram com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial

O governo da França anunciou que, a partir de 2015, disponibilizará na internet uma lista com os nomes de todos os cidadãos que colaboraram com a ocupação alemã do país durante a Segunda Guerra. A data marca o fim do “prazo de validade” de 75 anos do sigilo legal dos registros produzidos durante o período de invasão nazista, entre 1940 e 1944.

Essas informações virão de relatórios policiais que até agora são mantidos em arquivos governamentais franceses e no Museu de Coleções Históricas da Prefeitura de Polícia, em Paris. O governo promete escanear todos os documentos do período, incluindo interrogatórios e registros de prisões.

As informações reveladas ajudarão a escrever novos capítulos da história da França na Segunda Guerra Mundial. Conforme apontou a jornalista Nabila Ramdani em nota no jornal inglês The Guardian, a existência de dados mais precisos sobre a colaboração francesa com o regime de Hitler e com a deportação de judeus e demais opositores do nazismo pode levar os pesquisadores a reavaliar a história da Resistência Francesa.

Os documentos produzidos em 1940 serão divulgados em 2015. A partir de então, gradativamente os demais registros serão publicados ao longo de quatro anos.